Já há bastante tempo que algumas pessoas tinham pensado na possibilidade de preparar um presépio na aldeia. Tudo começou a 7 de setembro de 2024.
Por iniciativa do pároco, Padre Hélio, Nossa Senhora foi visitar vários lugares da freguesia, entre eles a Filha Boa. Foi um momento de comunhão, durante o qual muitos habitantes da aldeia se reuniram para decorar o percurso por onde a Senhora passaria — um momento marcante que ficou registado em fotografia. Já houve outros párocos que levavam a Senhora a abençoar as aldeias mas, com o passar do tempo, este hábito ficou esquecido. O jovem padre Hélio Soares, com o intuito de fazer chegar a bênção de Deus a todas as famílias — principalmente às que não conseguem sair de casa por doença ou velhice — retomou esta iniciativa.
Foi no final desta visita que uma senhora, filha da terra, Isabel Manita (IM), falou com os presentes e manifestou o seu desejo de concretizar um sonho: ter um presépio na aldeia. A ideia foi acolhida de imediato por alguns que também tinham pensado no mesmo. Gabriel Santos (GS) e Eduardo Dias (ED) juntaram-se a IM para pensar como o presépio seria concebido. Souberam que a Junta, na pessoa do presidente Nuno Pinto, ajudaria na preparação do espaço, montando umas paletes para servir de altar e oferecendo um foco de luz alimentado a energia solar.
A procura e a compra das peças
À medida que a data se aproximava, ED, juntamente com a esposa, foi pesquisando possíveis peças, mas ainda não havia espaço preparado para montar o presépio. Numa reunião informal, IM, GS e ED definiram o local pretendido e, obtidas as autorizações, prepararam-se para montar as paletes. A 26 de outubro de 2024, a Junta pintou o já desativado tanque de água, que estava em mau estado, e preparou o espaço para o presépio.
Com o espaço disponível, a ideia ganhou forma e foi preciso tratar do resto: as peças do presépio. Ouvindo sugestões de outros da aldeia, ED adquiriu primeiro as cinco peças principais — o Menino, Maria e José, com os dois animais do conjunto. Com cerca de 40 centímetros de altura e feitas de barro, pareciam as peças ideais. A notícia da aquisição depressa se espalhou pela população e muitos quiseram contribuir para a despesa. IM foi recolhendo contribuições de família e vizinhos, e até de familiares que já não moram na pequena aldeia.
As contribuições permitiram adquirir as peças dos Reis Magos, o anjo e a estrela, e ainda colocar luzes nas árvores. Foi a população que, demonstrando vontade, contribuiu — cada um à medida da sua capacidade.
Preparação do espaço
ED e a esposa arranjaram relva sintética, um oleado e outros materiais e, a 16 de novembro, iniciou-se a montagem do espaço. O entusiasmo era tanto que, quando algo faltava, os familiares deslocavam-se para adquirir o necessário. Aos poucos, muitos participaram na montagem — um momento comunitário que contou com a presença dos mais pequeninos, como o Romeu e a Madalena, até aos mais velhos. GS, ED e outros montaram o oleado com a ajuda dos que iam chegando, sempre com a supervisão do Sr. João e do Sr. Abílio.
Montagem do presépio
Foram colocados avisos em local próprio para que todos soubessem da iniciativa, marcada para 30 de novembro. Assim que souberam, houve quem se oferecesse para preparar doces e bebidas para comemorar. Foi espontâneo, natural — algo que motivasse todos a estar em comunhão. IM e o marido adquiriram carne para grelhar e, de repente, havia um lanche partilhado.
Pouco antes da hora marcada, Américo, marido de IM, na sua carrinha e com GS, foi juntar musgo e ramos de eucalipto. Assim nasceu o primeiríssimo presépio da aldeia de Filha Boa. O Padre Hélio benzeu as figuras e rezou-se em comunidade. Colocaram-se pedras, com a ajuda de Hortêncio Lemos, o musgo e o eucalipto à volta.
Acendeu-se uma fogueira para assar a carne enquanto todos partilhavam comida e bebida — as melhores produções caseiras ou de compra, entre elas o arroz-doce da D. Lucinda, um licor de baunilha da Sandra ou a cachaça da Fabiana. Uma festa alegre, com a participação de muitos da aldeia.
O concurso
As fotos do presépio foram submetidas pela equipa organizadora — IM, GS e ED — à delegação da União das freguesias de Carvoeira e Carmões. As imagens, publicadas na página da Junta, reuniram um total de 414 «likes» e, conforme o regulamento, o presépio de Filha Boa foi declarado vencedor desta edição do concurso. O primeiro prémio será entregue, nos termos do regulamento, pela Junta.
Vandalismo
A 2 de dezembro de 2024, segunda-feira, alguns partiram cedo para o trabalho mas, como habitualmente desde a montagem, foram visitar o presépio. Espantadas, IM e a esposa de ED não encontraram o Menino no lugar onde deveria estar. A troca de mensagens levou à conclusão de que o presépio tinha sido vandalizado e o Menino furtado. Restava o espaço vazio, apenas as palhas com as restantes figuras.
Muitos ficaram tristes e revoltados, sem saber como agir. ED informou IM, GS e alguns aldeões de que iria chamar a GNR. Considerando tratar-se de um crime público — uma vez que a comunidade participou na preparação e celebração do presépio — ED falou com a GNR, que se deslocou ao local e registou a ocorrência. Este registo pode ser consultado junto à GNR de Torres Vedras, e foi-nos indicado o prazo para formalizar a queixa.
Como o presépio não podia existir sem o Menino, ED dirigiu-se de imediato à loja onde tinha adquirido as peças, mas não havia uma para substituir a furtada. Numa outra loja próxima, ao cair da noite, conseguiu adquirir uma nova figura do Menino.
Minutos depois, enquanto ED seguia para a aldeia, IM ligou-lhe, nervosa e espantada, a informar que o Menino tinha sido encontrado escondido no musgo, do lado oposto e não visível — nem sequer à GNR que ali estivera —, concluindo-se que teria sido reposto por quem praticou este ato desrespeitoso.
Natal
O presépio criou na comunidade um novo hábito: uma paragem obrigatória para contemplar e admirar a Sagrada Família. Todos passavam por lá com regularidade — aldeões, visitantes e comerciantes. Nas redes sociais, muitos comentavam o presépio da Filha Boa. O Natal de 2024 entra na história da Filha Boa como o ano do primeiro presépio comunitário da aldeia e também por ter ganho o primeiro prémio do concurso promovido pela Junta da União das freguesias de Carvoeira e Carmões.
Desmontagem
No dia 12 de janeiro de 2025 procedeu-se à desmontagem do presépio e, como não podia faltar, houve novamente quem quisesse um lanche partilhado com o que tinha em casa: chouriço, bolo-rei, bolos variados, vinhos, café, licor de baunilha e espumante.
Os presentes, juntamente com o presidente da Junta, brindaram à vitória no concurso e a novas iniciativas que muitos manifestaram vontade de concretizar.
12 de janeiro de 2025 · Filha Boa, Carvoeira (Torres Vedras)
© 2025 E. D.